A tarde de sábado tinha aquela luz dourada que tornava tudo mais bonito — e mais ousado.

 

Lia e Maya moravam no 4º andar do Edifício Jardins havia dois anos. E há alguns meses um vizinho havia se mudado para o prédio em frente — aquele homem de ombros largos, olhar escuro e sorriso torto que elas nunca souberam o nome — fazia parte das fantasias das duas.

Era um jogo não declarado. Ele na sacada com o café, elas passeando com pouca roupa pela janela. Um olhar que durava um segundo a mais do que deveria. Um sorriso de canto de boca. Nada além disso — mas nada era pouco.

Naquela tarde, Maya abriu a gaveta do criado-mudo e tirou o tubinho verde.

— O gel? — Lia arqueou a sobrancelha, largando o celular.

— O gel. — Maya sorriu com aquela expressão que Lia conhecia bem. — E não vou fechar a cortina.

Lia ficou parada por três segundos. Depois se levantou da cama.

Maya aplicou o gel primeiro em Lia — uma pequena quantidade, os dedos espalhando devagar sobre ela, e ambas já sabiam o que viria: aquela sensação começava suave, quase imperceptível, e então crescia. Um formigamento que virava calor, que virava pulsação.

— Meu Deus — Lia murmurou, os quadris se movendo sozinhos para encontrar a mão de Maya. — Já está—

— Eu sei. — Maya estava sorrindo, os olhos escuros fixos no rosto da namorada, vendo exatamente o momento em que o gel começava a agir de verdade. O rubor que subia pelo pescoço. Os lábios que se abriam.

Lia estava ficando cada vez mais úmida sob os dedos de Maya — o gel amplificava tudo, tornava cada toque numa descarga, cada pressão num tremor. Ela segurou o pulso da namorada sem consciência, não para parar, mas porque precisava se ancorar em alguma coisa.

— Agora em você — ela conseguiu dizer.

Maya deixou Lia aplicar. E quando os dedos dela tocaram, já impregnados do gel, Maya arqueou as costas e soltou um som baixo, gutural, que foi direto para o ventre de Lia.

As duas estavam em pé na frente da janela. A luz da tarde entrava oblíqua. E nenhuma das duas fechou a cortina.

Foi Lia que o viu primeiro.

Ele estava na janela do apartamento em frente — não na sacada, na janela, mais perto do que o normal, como se algo tivesse chamado sua atenção. A camisa aberta. Os braços apoiados no batente.

Olhando.

— Maya. — A voz de Lia saiu rouca. — Ele está vendo.

Maya virou o rosto lentamente para a janela. Encontrou o olhar dele. E em vez de recuar, encostou Lia na parede de vidro — as costas dela frias contra o calor do corpo — e desceu os lábios pelo pescoço da namorada com uma lentidão deliberada, os olhos ainda no vizinho.

Pode olhar, disse esse gesto. É pra isso.

Lia gemeu alto — o gel pulsava dentro dela como um segundo coração, cada batida amplificada, cada toque de Maya multiplicado. Os dedos da namorada se moviam num ritmo que ela conhecia de cor, mas com o gel tudo parecia novo, mais intenso, quase insuportável de tão bom.

— Não para — Lia pediu, as mãos nos cabelos de Maya, o vidro frio nas costas, o olhar do vizinho lá fora como uma corrente elétrica que ela sentia mesmo sem encostá-lo.

Maya não parou.

Ela desceu, os joelhos no chão, e quando a boca dela encontrou Lia, as duas já tinham esquecido que fingiam ser um espetáculo. Tinham se tornado apenas o que eram: dois corpos que se conheciam muito bem e que estavam, naquela tarde, absolutamente perdidos um no outro.

Lia veio com um grito que não conseguiu segurar — as pernas tremendo, os dedos apertando os ombros de Maya, o orgasmo chegando em ondas longas que o gel esticava e esticava até ela achar que não ia acabar nunca.

Quando Lia abriu os olhos, ofegante, olhou para a janela em frente.

Ele tinha sumido.

A campainha tocou seis minutos depois.

As duas se entreolharam. Maya ainda tinha os lábios vermelhos. Lia ainda não tinha conseguido se vestir direito.

— Não pode ser — Lia sussurrou.

Mas era.

Maya amarrou o roupão e foi até a porta. Abriu.

Ele era ainda mais alto de perto. Os olhos escuros que as duas tinham admirado da janela agora estavam aqui, a dois palmos de distância.

— Eu moro no 402. — A voz era grave, direta. — Do outro lado da rua.

— A gente sabe. — Maya apoiou o braço no batente da porta, o roupão entreaberto o suficiente. — Quer entrar?

Ele olhou para Maya. Olhou para Lia, que tinha aparecido atrás da namorada com o cabelo desfeito e os lábios ainda inchados.

— Só se as duas quiserem.

Lia e Maya trocaram aquele olhar rápido que duas pessoas que se amam de verdade sabem ler em menos de um segundo. Uma pergunta e uma resposta ao mesmo tempo.

— Entre - Disse Lia.

O nome dele era Rafael.

Elas descobriram isso na porta — ele falou enquanto entrava.

A sala estava com a luz da tarde ainda entrando pela janela sem cortina. Maya fechou a porta. Lia estava encostada na parede, o roupão frouxo, os cabelos desfeitos, ainda com aquele brilho nos olhos de quem acabou de gozar e não se importa que o mundo saiba.

Rafael ficou parado no meio da sala por um segundo — olhando para uma, depois para a outra.

— Como vocês querem fazer isso? — ele perguntou.

Maya gostou da pergunta. Gostou que ele perguntou.

— Senta no sofá — ela disse.

Ele sentou. Maya foi até a gaveta e voltou com o tubinho verde.

— O quê é isso? — Rafael olhou com curiosidade.

— Você vai descobrir — Lia disse, ajoelhando na frente dele.

Enquanto Lia abria o cinto de Rafael com calma, Maya se aproximou por trás dele, os lábios no pescoço, as mãos descendo pelos ombros. Ele era grande, quente, e reagia a cada toque com aquela contenção masculina que é mais excitante do que qualquer barulho.

Quando Lia o libertou  seu pau da calça e o segurou pela primeira vez, ele soltou o ar pelos dentes.

— Fica quieto — Maya murmurou no ouvido dele. — A gente vai cuidar de você.

Lia passou a língua nele de baixo a cima, devagar, os olhos erguidos para o rosto dele — e Rafael largou a cabeça para trás no ombro de Maya.

Foi Maya quem pegou o gel.

Ela abriu o tubinho e aplicou uma quantidade generosa nas mãos — esfregou as palmas para aquecer — e então envolveu Rafael com os dois dedos com cuidado e firmeza.

Ele não esperava.

— Caralho — ele disse, a voz saindo diferente, mais funda. — O que é—

— Espera — Lia sorriu. — Daqui a pouco.

O gel começou a agir em questão de segundos. O formigamento, depois o calor, depois a pulsação que tomava conta de tudo. Rafael estava ficando ainda mais duro sob as mãos de Maya, e a expressão no rosto dele — aquela mistura de surpresa e prazer intenso — fez as duas trocarem um olhar de cumplicidade por cima do ombro dele.

— Meu Deus — ele murmurou.

— Bem-vindo — disse Maya.

Lia subiu primeiro.

Ela se posicionou sobre Rafael no sofá, as mãos nos ombros dele, e desceu devagar no pau dele, seu buceta molhada e super sensivel por causa do orgasmo que tinha tido ha pouco tempo atrás, o gel dentro dela ainda pulsava.

Quando ela assentou completamente, os dois ficaram parados por um segundo só respirando.

— Não se mexe ainda — ela avisou, a voz rouca.

Maya, atrás do sofá, inclinou o rosto para o de Rafael e o beijou — um beijo longo, com língua, enquanto Lia começava a se mover em cima dele em ondas lentas. Rafael tinha uma mão na cintura de Lia e a outra havia encontrado o cabelo de Maya, os dedos enroscando sem que ele percebesse.

Lia acelerou o ritmo, subindo e descendo com força, dando algumas reboladas pra deixar tudo ainda mais intenso. O gel fazia tudo vibrar por dentro — cada movimento de Rafael dentro dela era multiplicado, a pulsação constante que o gel criava se misturando ao calor dele até ela não saber mais onde um terminava e o outro começava. Ela gemeu alto, sem cerimônia.

— Assim — ela disse, guiando o quadril dele com as próprias mãos. — Exatamente assim.

Rafael segurou a cintura dela com força e foi ao encontro do movimento, e Lia jogou a cabeça para trás e gozou pela segunda vez naquela tarde — mais longo, mais fundo, as coxas tremendo sobre ele.

Maya esperou Lia descer antes de tomar o lugar dela.

Lia ficou do lado, os joelhos no sofá, enquanto Maya virava de costas para Rafael — sentando sobre ele aos poucos, a espinha ereta, as mãos nos joelhos dele para se equilibrar.

Rafael prendeu a respiração, não estava aguentando mais todo aquele tesão, era tudo muito intenso e excitante, ele queria gozar, mas estava se segurando.

O gel ainda estava ativo — Maya sentiu a pulsação começar assim que ele entrou, uma pressão quente e constante que a fez fechar os olhos e parar de se mexer por um instante só para processar.

— Fica — ela disse para ele, que havia começado a se mover. — Deixa eu.

Ela controlou o ritmo. Movimentos circulares primeiro, depois para cima e para baixo, encontrando o ângulo que fazia o gel trabalhar exatamente onde ela precisava. Rafael tinha as mãos nas coxas dela, apertando mas sem forçar, e Maya podia sentir o quanto ele estava contendo.

Enquanto isso, Lia se posicionou na frente de Maya — as duas se encarando — e desceu a boca nela.

Maya soltou um som que não era bem um gemido e não era bem um grito. Era uma coisa do meio, involuntária, que fez Rafael apertar as mãos nas coxas dela ainda mais.

A boca de Lia, a pulsação do gel, o calor de Rafael por baixo — as três sensações chegavam ao mesmo tempo, de direções diferentes, e Maya não conseguia escolher em qual delas focar. Então parou de tentar. Deixou tudo acontecer junto.

Ela gozou com as mãos no cabelo de Lia e um nome na boca que não era de nenhuma das duas — era apenas um som, uma sílaba, o corpo encontrando seu próprio idioma.

Rafael estava perto. As duas perceberam — no ritmo da respiração, na tensão nos braços.

Maya desceu. Lia tomou o lugar dela — deitou de costas no sofá, puxou Rafael sobre ela, e o recebeu de frente dessa vez, as pernas envoltas na cintura dele.

De frente era diferente. Mais íntimo. Ele podia ver o rosto dela.

Maya ficou do lado deles, deitada de lado no sofá, a mão de Lia entrelaçada na sua enquanto Rafael se movia sobre ela com aquela urgência de quem está no limite. Maya beijou o ombro de Lia. Lia apertou a mão de Maya.

Rafael gozou com o rosto enterrado no pescoço de Lia, os braços tremendo de sustentar o peso, um som baixo e contido que as duas guardaram como troféu.

Os três ficaram deitados no chão da sala depois — a tarde havia virado noite sem que ninguém notasse, e a janela ainda estava aberta, mas agora não havia mais nada do outro lado para ver.

Rafael estava de costas, o braço cruzado sobre os olhos, a respiração voltando ao normal.

— Vocês são demais. O que é esse gel?— ele disse para o teto.

— Hm? — Maya sorriu contra o ombro de Lia.

As duas explodiram em riso ao mesmo tempo — um daqueles risos que vêm do fundo, que esquentam o peito, que fazem tudo valer a pena.